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Lascar: conheça a experiência de subir um vulcão ativo no deserto

O céu preto da noite vai dando lugar ao azul marinho do amanhecer. Numa das curvas, a lua cheia se exibe num laranja inexplicável. É uma bola enorme que colore o céu. Os olhos mareiam. Nunca a vi tão bela. Ela desfila na sua despedida do céu nesta noite. No carro, o vapor nubla a janela. Os termômetros marcam zero graus. Somos quatro loucos dispostos a subir o vulcão Lascar, ativo e de 5.600 metros. Um velho que vigia o Atacama desde tempos remotos.

Inexperientes e sedentários turistas buscando se superar e atingir o cume. Cada um se preocupa com uma coisa. Uma, pela ansiedade. Outra, pela asma. Eu, com a barriga que sente cólica. A quarta está tão autoconfiante que dá raiva. Chegamos à Laguna Lejia para o café da manhã. Agora o termômetro desceu cinco casas no negativo e marca -5 graus. O cenário é quase assustador de tão belo. A laguna reflete os vulcões e montes num efeito que só pode ser de photoshop, mas são meus olhos que miram esse espelho na vida real.

Recebemos mais recomendações do guia. Devemos ir devagar, usar os bastões coordenados com a respiração. Andar um passo por vez. Vamos ao carro e subimos rumo ao vulcão. Chegamos motorizados o mais alto que se pode. Descemos e começamos a caminhada em diração ao alto. Os passos são curtos. A respiração profunda. Subir um vulcão é como uma meditação: um ato individual e mais mental do que físico. Converso comigo no meu próprio silêncio: vou conseguir! – penso e vou executando.

Uma das minhas três companheiras é do tipo tagarela. Fala com frequência. Reclama, observa o que nossos olhos já viram e vai narrando parte da viagem. Ela não respeita o silêncio dos obstinados, prestes a uma conquista grandiosa que é subir um vulcão ativo. Paramos. Tempo necessário para descansar e tomar água. O intervalo é curto para não perder o pique. O caminho é feito no meio das incertezas de uma trilha sem demarcação. Há neve tornando tudo mais mágico. O cheiro de enxofre vai ficando mais forte.

Outro grupo já desce. Um passo de cada vez. Seguimos rumo ao alto até alcançar a cratera do vulcão. Lá, fumaça e uma imensidão. É possível ver toda a Cordilheira dos Andes. A companheira de subida que tinha mais certeza que chegaria passa mal. Eu me sinto bem. Somos dois grupos juntos, cada um com seu guia. Um deles fica com a moça que passou mal e com os que decidem não ir até o cume. Nós seguimos. São mais 200 metros paredão acima. Agora, o vulcão não nos poupa e apresenta seu trecho mais íngreme. O caminho é feito de pedras maiores, que algumas vezes desmoronam. Percorremos tudo lentamente.

Foram 3 horas de subida. Chegar no topo é uma sensação única. Uma conquista. Uma catarse individual. Eu mal consigo respirar. Cuspo as folhas de coca que mascava e que me acompanharam boa parte do caminho. Sento. Agora faz -10 graus, com um vento incômodo e cortante. Pausa para as fotos e descida. Me traio e desço rápido. Sou cobrado pela altitude. Ao chegar na cratera sinto alguns sintomas dela. Náuseas e uma sensação de pressão baixa, misturada a vontade de ir ao banheiro e ânsia de vômito.

O guia me acalma. Preciso respirar fundo e rápido como os monges das montanhas. Melhoro e desço. Uma hora e meia e 2,5 quilômetros me separam do carro. Digo para mim mesmo que sou capaz. E sou. Chego e adormeço na sequência. Nem vejo o caminho de volta até San Pedro. Ao chegar na cidade conhecida como o oásis do deserto é como se nada tivesse acontecido. A pressão na cabeça passou e só lembro daquele momento mágico, que foi chegar ao topo do deserto. Recomendo!

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